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Assunto: Mundo
01.04.08
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John Wilson, da CEC: Califórnia - um modelo em eficiência energética
O estado americano mais populoso e rico dos EUA investe pesado para reduzir emissões de gases do efeito estufa e consumo de energia
Por Alexandre Canazio, para o Procel Info

John Wilson, da CEC: Califórnia como
referência em ações de eficiência
energética

A Califórnia é conhecida mundialmente por ser a sede da indústria cultural dos Estados Unidos. Mas o estado, o mais populoso e rico dos EUA, também é um líder mundial e, portanto, referência quando falamos em eficiência energética. As políticas públicas são responsáveis pelos ganhos com conservação de energia. E o grande centro emanador das diretrizes da política de eficientização é a California Energy Comission - (Comissão de Energia da Califórnia - CEC), criada em 1975 para enfrentar a crise energética gerada pelo embargo do petróleo promovido pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Desde então, a taxa de crescimento do consumo por habitante na Califórnia passou de 7% ao ano para próximo de zero, enquanto a norte-americana caiu de 4% para 2% anuais.

Para conhecer mais sobre a experiência californiana, o Portal Procel Info conversou com um dos mais antigos funcionários da CEC, John Wilson, conselheiro do comissário Art Rosenfeld, e responsável pelo planejamento de longo prazo da demanda estadual. Wilson, que é formado em economia pela Universidade da Califórnia, trabalha com eficiência energética desde que entrou na comissão em 1977. "Economistas gostam de poupar dinheiro, e nós gostamos de eficiência energética porque é o modo mais barato de reduzir a poluição, a necessidade de plantas de geração caras e as emissões de gases do efeito estufa. O uso eficiente da energia também promove crescimento econômico", afirmou nesta entrevista.

Wilson fala ainda sobre o papel das crises no avanço da eficiência energética. "Grandes mudanças em política energética sempre foram motivadas por grandes crises", disse, lembrando os racionamentos de Califórnia e Brasil e o embargo da OPEP. O conselheiro da CEC nos conta ainda sobre os avanços conseguidos na Califórnia e as novas fontes de financiamento para projetos de eficiência energética. "Os investimentos das distribuidoras em programas de eficiência energética serão perto de um bilhão de dólares por ano". Leia abaixo a entrevista completa com John Wilson:

"Na Califórnia, o consumo de energia elétrica dos refrigeradores aumentou rapidamente, junto com o tamanho deles, até a crise energética de meados de 1970. Depois disso, o uso de eletricidade dos refrigeradores caiu dramaticamente, de cerca de 1,8 mil kWh por ano para cerca de 450 kWh".

Procel Info - Eficiência energética é um dos assuntos mais comentados mundialmente hoje em dia. De governos a grandes companhias, de pequenos negócios a residências, todos querem economizar energia e ao mesmo tempo salvar o mundo. Foi muito difícil tornar eficiência energética um assunto dessa importância?

John Wilson - É muito difícil. Minha experiência é que as pessoas gostam de falar sobre eficiência energética e da sua importância, mas as suas ações não se comparam as suas palavras. O custo da energia simplesmente não é alto o suficiente para chamar a atenção das pessoas. O público só pensa em energia quando o preço da gasolina aumenta ou falta luz. Aí, então, há uma grande chiadeira, e os políticos se apressam tentando se passar como se estivessem resolvendo o problema, mas eles não estão. Ambos, Brasil e Califórnia, têm experiência em racionamento de energia em anos recentes, e programas governamentais drásticos resultaram em significativa redução no uso de eletricidade. Mas as transformações foram baseadas em mudanças de comportamento, não investindo em produtos mais eficientes, e as crises terminaram, assim como as ações de conservação de curto prazo.

A Califórnia se beneficiou de um comprometimento de longo prazo com a eficiência energética desde o embargo de petróleo da OPEP, que teve um grande impacto em como a energia é usada. Mas isso foi através da implementação consistente de muitas medidas durante um longo período de tempo.

Procel Info - Aconteceram alguns eventos históricos que nos empuraram para a eficiência energética como o embargo da OPEP e o aquecimento global. Sem esses eventos, nós teríamos nos voltado para a eficiência energética?

John Wilson - Grandes mudanças em política energética sempre foram motivadas por grandes crises. Há muitos exemplos disso. Certamente o embargo da OPEP teve um impacto global, e as crises elétricas na Califórnia e no Brasil motivaram os governos a fazerem coisas que, em outras situações, nunca fariam. Sem crises, grandes corporações que se beneficiam do status quo são capazes de prevenir mudanças, especialmente com relação à eficiência energética porque companhias de energia não estão interessadas em vender menos energia.

Procel Info - O aquecimento global uniu o planeta na missão de reduzir as emissões de gases do efeito estufa. A eficiência energética ganhou um papel de destaque nessa briga porque ajuda a evitar a construção de novas usinas e reduz a poluição. Quais são as principais ações que devemos tomar para ter sucesso com a eficiência energética na luta contra o aquecimento global?

John Wilson - Quando as pessoas falam em uso da energia e políticas para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa, elas falam em transporte. Por algumas razões, carros e gasolina são mais tangíveis para o público do que o uso de eletricidade e gás natural em edifícios. Mas as edificações são responsáveis por 40% da emissão global de gases do efeito estufa, e, portanto, a ação-chave é focar nos edifícios, tanto novos como nos existentes. Edíficios são um desafio muito maior. Os carros duram de sete a 10 anos, mas as construções duram de 25 anos a 50 anos. Então, eles são parte significante do problema, e muito mais difíceis de mudar.

Procel Info - De tempos e tempos, governos mudam trazendo alterações na política energética. Como o senhor viveu este tipo de experiência no campo da eficiência energética?

John Wilson - Bem, certamente, mudanças na administração e partidos políticos trazem alterações na direção da política energética. Mas as mudanças de maneira geral são relativamente pequenas comparadas com o que acontece em resposta para as crises. Como eu disse, grandes mudanças são motivadas por crises - quando mudanças são necessárias, não escolhas. Nós falamos sobre a OPEP, que foi uma crise global, mas o impacto do embargo na Califórnia foi amplificado porque nós não somente dependíamos do petróleo para transporte, mas também para 75% da nossa geração de energia elétrica - em um tempo quando a demanda estava crescendo 7% ao ano.

A resposta foi dramática. As concessionárias queriam criar uma agência estadual que emitiria permissões para a construção de 20 a 40 plantas nucleares - essas usinas fariam duas coisas - reduzir o uso de petróleo na geração de eletricidade e atender a galopante demanda. Os ambientalistas queriam uma agência criada que tivesse a habilidade de estabelecer índices de eficiência energética para edifícios e aparelhos elétricos que reduziriam o crescimento de demanda, para desenvolver tecnologias alternativas de geração de fontes renováveis, e para revisar independentemente as previsões das concessionárias e as opções de fonte para eletricidade.

Estes pontos se tornaram o núcleo da ação da CEC, em legislação assinada por Ronald Reagan quando ele foi governador do estado. Ironicamente, ele teve uma visão mais limitada do papel do governo em política energética cinco anos depois quando se tornou presidente dos Estados Unidos. Mas criar a CEC foi uma das mais significantes mudanças em política energética governamental nos Estados Unidos.

Procel Info - A Califórnia é um dos líderes mundiais em termos de políticas de eficiência energética. Como o estado conseguiu esta distinção?

John Wilson - Um exemplo é nossa capacidade de estabelecer índices de eficiência energética para aparelhos elétricos, que têm sido muito importantes. Por exemplo, o consumo de energia elétrica dos refrigeradores aumentou rapidamente, junto com o tamanho deles, até a crise energética de meados de 1970. Depois disso, o uso de eletricidade pelos refrigeradores caiu de cerca de 1,8 mil kWh por ano para cerca de 450 kWh. É importante salientar que esse ganho em eficiência energética não reduziu a função ou tamanho das geladeiras, e mais importante, consumidores não notaram a diferença. Isto é o que eficiência energética é - reduzir o uso de energia, enquanto prover o mesmo ou melhor serviço de energia, pelo mesmo custo.
"Baseado em muitos estudos de potencial de eficiência energética e novas tecnologias, a meta do "Energy Efficiency Strategic Planning 2008-2020" se traduz em tornar todas as casas em energia líquida zero em 2020, e todos os prédios comerciais, em 2030"

Procel Info - O senhor poderia falar sobre os ganhos que os EUA e a Califórnia alcançaram nestas três décadas?

John Wilson - De maneira geral, a Califórnia tem sido muito mais bem-sucedida que os EUA. Por exemplo, pode-se comparar o uso de eletricidade em termos de kWh por pessoa para os EUA e a Califórnia desde 1960. O uso de eletricidade por pessoa estava crescendo 4%, até o embargo da OPEP; neste ponto, o crescimento no uso da energia elétrica na Califórnia parou, e tem sido constante nos últimos 30 anos, enquanto os EUA continua aumentando cerca de 2% ao ano. O resultado é que o uso de eletricidade por pessoa na Califórnia é a metade do que o verificado nos EUA, o que resulta na economia de bilhões de dólares por ano e muito menos poluição. Há muitas razões para as diferenças entre EUA e Califórnia, mas certamente os agressivos padrões e políticas de eficiência de energética contribuíram largamente.

Procel Info - As concessionárias privadas estão preparando o "Energy Efficiency Strategic Planning 2008-2020" (Planejamento Estratégico de Eficiência Energética 2008-2020). Qual é a meta?

John Wilson - A meta é extremamente agressiva: alcançar todo o potencial ótimo de eficiência energética da Califórnia. Baseado em muitos estudos de potencial de eficiência energética e novas tecnologias, a meta se traduz em tornar todas as casas em energia líquida zero em 2020, e todos os prédios comerciais, em 2030. Energia líquida zero (Zero net energy) significa que os prédios são muito eficientes, e que usam fontes de energia renovável como fotovoltaicos para gerar as necessidades de energia remanescentes, não utilizando energia da rede. Objetivos similares estão previstos para edifícios existentes. Outras informações estão disponíveis em www.californiaenergyefficiency.com.

Estas metas também estão estreitamente ligadas com a política fixada pelo governador (Arnold Schwarzenegger) e o legislativo para reduzir as emissões de gases do efeito estufa da Califórnia - diminuir as emissões para os níveis de 1990 em 2020. O extenso plano para alcançar a meta está sendo desenvolvido pelo California Air Resources Board (www.climatechange.ca.gov).

Procel Info - Outro desafio para a eficiência energética é o financiamento dos programas. Como a Califórnia resolveu o problema?

John Wilson - Uma grande inovação na Califórnia foi o desenvolvimento da public goods charges (cobrança dos bens públicos) em eletricidade e gás natural para financiar programas de eficiência energética, pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novas tecnologias, e apoio a energia renovável. Isto significa cerca de 3% de aumento no preço da energia elétrica e gás natural, e é usado para pagar por projetos que reduzam uso de energia e poluição, seja apoiando diretamente através de programas de eficiência e energia renovável, ou indiretamente por P&D. Ele não é controversial - não há oposição do público ou de políticos.

Os fundos para eficiência energética são incrementados mais ainda pelos procurement funds (fundos públicos), que se referem aos processos que as concessionárias utilizam para procurar novas fontes de energia elétrica. Isto é, elas buscam todas as opções disponíveis de diferentes geradores, seja convencional ou renovável, e também em eficiência energética. Então, eles compram as opções mais baratas e limpas. Sendo a eficiência energética avaliada como mais barata e limpa do que fontes de geração, os gastos das concessionárias com os fundos públicos para eficiência energética dobram em relação aos gastos em eficiência energética através dos encargo dos bens públicos. Os investimentos das distribuidoras em programas de eficiência energética serão perto de um bilhão de dólares por ano.

John Wilson é conselheiro do comissário Art Rosenfeld na Comissão de Energia da Califórnia, onde trabalha desde 1977. Ele é responsável pelo Public Interest Energy Research Program e pela formulação de cenários de longo prazo para o sistema de energia da Califórnia. Wilson ganhou o prêmio "Champion of Energy Efficiency" do American Council for Energy Efficient Economy em 2006. O especialista é formado em Economia pela Universidade da Califórnia
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