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26.10.16
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Oportunidade de avanço da eficiência energética no Brasil
Fonte: Energia SP - 26.10.2016
Por Cristiano Prado

Brasil - A matriz elétrica brasileira tem mudado de maneira estrutural nos últimos anos. A decisão de construir usinas hidrelétricas com reservatórios “pequenos” – ou a fio d’água – buscou mitigar impactos ambientais, mas gerou efeitos colaterais adversos como o declínio da capacidade de regularização de nossos reservatórios e a necessidade de ampliação de geração complementar nos períodos de seca. A despeito do relevante esforço brasileiro em expandir a geração eólica e solar, essa complementação é, e continuará sendo por um bom tempo, majoritariamente feita por termelétricas, dada a dimensão de nosso mercado.

Isso é relevante porque as termelétricas emitem muito mais e produzem energia mais cara do que as hidrelétricas. Usando dados do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, por exemplo, pode-se considerar conservadoramente a emissão de cerca de 40 kg de CO2 por MWh no ciclo de vida completo de uma usina hidrelétrica. Uma termelétrica a gás, por sua vez, emite 10 vezes mais – algo da ordem de 400 kg de CO2 para gerar o mesmo MWh. Se for de carvão, a emissão é 20 vezes superior: 920 kg de CO2 por MWh. Em termos de custo de produção, o MWh da termelétrica é no mínimo duas vezes mais caro – novamente sendo conservador na conta. A matemática, portanto, é clara: teremos – a priori – que conviver com energia mais cara e mais emissões de gases de efeito estufa nos próximos anos.

Essa situação, porém, pode mudar – e o Brasil está atuando para isso: ratificou em setembro o Acordo de Paris, logo após China e Estados Unidos também o terem feito. No último dia 4 de outubro foi a vez de o Parlamento Europeu fazer o mesmo. Sob a liderança das potências mundiais, os requisitos mínimos de subscrição de 55 países representando 55% das emissões foram alcançados e o Acordo entrará em vigor já em novembro deste ano.

Para superar a barreira do financiamento à eficiência é essencial engajar o mercado financeiro privado.

Os compromissos assumidos pelo nosso país na CoP-21 incluem, dentre outros, a redução das emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025 e 43% até 2030 e ampliação da parcela de renováveis não hídricos em nossa matriz. Talvez o mais promissor em termos de impacto, porém, seja o de expandir significativamente a eficiência energética no setor elétrico, já que essa ação tem reflexos diretos e imediatos sobre o custo de energia e as emissões: a energia mais barata e mais limpa é aquela que se economiza.

A eficiência energética ainda é incrivelmente pouco desenvolvida no país. De fato, segundo o ranking de 2016 de eficiência energética da ACEEE (American Council for an Energy Efficiency Economy), dentre 23 países analisados, o Brasil ocupa a penúltima posição no ranking quando consideradas variáveis como esforço nacional em prol do tema, eficiência em prédios e instalações, indústria e transporte.

Países como África do Sul, Turquia, Tailândia – sem falar dos países desenvolvidos – se encontram à nossa frente no ranking. Considerando as dimensões da economia brasileira, é possível enxergar aqui um mercado em potencial a ser explorado, se a principal barreira que o impede de deslanchar for vencida: seu financiamento.

Produzir mais com menos energia é bom para o meio ambiente e bom para o bolso. O problema é que, da forma que os projetos de eficiência energética são hoje oferecidos aos compradores em potencial – empresários, industriais, comerciantes – há a necessidade de se investir uma soma muito elevada no curto prazo para obter retorno de longo prazo. A realidade do setor produtivo e as características de nossa economia, porém, não permitem que isso ocorra, ainda que o retorno futuro seja comprovadamente excepcional. Embora haja bons projetos, pouca coisa sai do papel. E a eficiência energética não avança.

É possível observar que agentes de fomento nacionais e internacionais já estão atentos a essa questão. O BNDES melhorou, no último dia 3 de outubro, suas condições de financiamento para energia renovável e eficiência energética. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (Pnud) e o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), criou um mecanismo de garantia para facilitar a obtenção de financiamento, que já está em funcionamento. Ações como essas são de extrema importância e contribuem para o avanço, mas são ainda insuficientes para deslanchar o mercado.

Para superar a barreira do financiamento é essencial engajar o mercado financeiro privado na ampliação do conhecimento do tema, dos ganhos que a eficiência energética proporciona e das características intrínsecas desse negócio. É necessário também que sejam criados padrões de contratos, medições e remunerações que possam ser replicáveis, verificáveis e transparentes. Com a assimetria de conhecimento eliminada e riscos devidamente identificados e precificados, rapidamente surgirão diversos modelos de financiamento para atender a demanda – como securitização de recebíveis e criação de fundos específicos. Já há conversas e propostas iniciais em discussão nessa linha com agentes de mercado.

Vencido o desafio da modelagem financeira, não faltará capital para investir em eficiência energética – bancos comerciais, de fomento e fundos de pensão estão à busca de boas oportunidades. Isso sem falar nos US$ 100 bilhões por ano que serão disponibilizados pelos países desenvolvidos, no âmbito do Acordo de Paris, para aplicar em ações nos países em desenvolvimento que ajudem a mitigar os efeitos da sociedade sobre o clima. Neste quadro, a meta de ampliação de 10% de eficiência energética, que hoje é desafiadora, poderá ser facilmente superada.

Aproximar a eficiência energética do mercado financeiro ajudará fortemente o Brasil a cumprir os objetivos assumidos na CoP-21 e a reverter a tendência estrutural de nossa matriz. Temos hoje no país a oportunidade única de desenvolvimento de um novo mercado que trará enormes benefícios ambientais e de competitividade. Como nos projetos de eficiência energética, o ganho futuro é claro, basta que façamos o investimento necessário agora.

* Cristiano Prado, mestre em economia pela PUC-RJ, é diretor executivo da ABCE (Associação Brasileira de Consultores de Engenharia).

Email: crprado@abceconsultoria.org.br

Esta notícia não é de autoria do Procel Info, sendo assim, os créditos e responsabilidades sobre o seu conteúdo são do veículo original, exceto no caso de notícias que tenham necessidade de transcrição ou tradução, visto que se trata de uma versão resumida pelo Procel Info. Para acessar a notícia em seu veículo original, clique aqui.
  
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